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Alerta Amarelo

Alerta Amarelo

Auschwitz: 60 Anos Depois

Quando cheguei a Oświęcim, depois de tratada a questão do aluguer de autocarro e de uma sonolenta viagem, não estava preparado para o que se seguia. A sala de espera do agora Museu de Auschwitz assemelhava-se a uma qualquer sala de espera de um monumento muito visitado, cheio de turistas mais ou menos histéricos e recuerdos à venda. Fiquei-me por um chocolate quente que a isso convidava o gelo que se fazia sentir.

 

Ao dirigir-me para o ex-campo de concentração, vi finalmente o famoso portão com a sinistra inscrição Arbeit macht frei (o trabalho liberta), e foi aí que senti o primeiro choque. O portão era muito mais pequeno que o que me dizia a minha memória hollywoodesca, e o facto da imagem não ser a preto e branco tornava-a muito mais vulgar, não parecia um campo de concentração. Ao atravessar as primeiras ruas essa ideia tornou-se mais forte ainda, edifícios de tijolo bem ordenados, um aspecto limpo e até árvores! Já tinha visto bairros menos simpáticos.

 

Inaudível que era o guia, lancei-me por minha conta a visitar as exposições que preenchem quase todos os edifícios. A sujidade e degradação dos objectos expostos era evidente, e para fugir a uma excursão de teenagers alemães, abandonei rapidamente esse primeiro edifício. Ao calhas entrei num segundo, e só aí pude ver com calma o que estava exposto. Corredores com fotografias de crianças mortas, relatos de sobreviventes, de fugas. Listas de prisioneiros, descrições do que era feito em cada compartimento, espaços ínfimos onde era suposto dormirem dezenas de pessoas. Objectos de tortura, descrições das torturas, das dietas "alimentares", roupas, cabelos, e mais corredores com fotografias dos mortos de Auschwitz. Em pouco tempo se desvaneceu a primeira imagem, e sentia um enorme aperto no coração.

 

O sentimento é dúplice, identificação com as vítimas e remorso por sermos humanos como os seus carrascos. À saída o festival de flashs e souvenirs parece-nos completamente despropositado e de mau gosto. Mas mesmo assim preferi ficar por aí, a ter que visitar Auschwitz II. No regresso a Cracóvia a monotonia da paisagem polaca não é suficiente para nos fazer adormecer de novo. E à noite é um pouco incrédulos que vemos, nas lojas da praça central da cidade, caricaturas de judeus feitas em madeira ao lado das costumeiras t-shirts e das importadas babushkas. A memória é muito curta. Faz hoje 60 anos, e esquecer é um crime.

 

 

 

 

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