Teologia da tragédia
Algumas pessoas, (que só reparam na tragédia quando ela tem proporções titânicas ou quando lhes toca na pele) aproveitam calamidades para fazer perguntas, por vezes até com um toque de teologia de café. Então o bom Deus permite estas coisas? interrogam-se as tais pessoas.
Esta pergunta parece ser válida apenas quando morre muita gente junta. Quando morre uma só, ninguém se interroga, ninguém acha estranho, como se a vida duma só pessoa não fosse motivo suficiente para intervenção divina. Que Deus seria esse que interviria quando muitas pessoas morrem juntas na mesma tragédia e não mexe um dedo do pé quando esta ou aquela pessoa está em evidente sofrimento (ou milhares delas separadas por espaço e causas)? A partir de que número deve Deus actuar?
A pergunta: então e Ele deixa estas calamidades matarem aos magotes? esta pergunta, só pode revelar falta de atenção. As calamidades acontecem a todo o instante, a nível global e a nível pessoal, por vezes com intervenção humana, por vezes sem ela, mas sempre com a mesma cegueira no que respeita à nossa melhor moral. A morte existe e pode-se morrer de qualquer coisa, a qualquer idade, e é aí que está a verdadeira tragédia: na efemeridade, na “água derramada em areia”, na “gota de orvalho na borda do cântaro” (se me permitem palavras bíblicas - as de Salomão e de Isaías). Toda a Natureza se está nas tintas para se este ou aquele vive ou morre, e não favorece o Homem mais do que a uma mosca. A Natureza não vai lá com justiças e injustiças, não se compadece deste e castiga o outro, não tem preferidos para mimar, não tem inimigos para brutalizar. Lao Tsé dizia que o “Universo trata os homens como cães de palha” (oferendas destinadas a serem queimadas). É assim a natureza, sem educações e sem moral. Sem ponta de respeito pelos direitos humanos, pelos Estados democráticos ou pela modernidade herdeira da Razão e do Iluminismo. Já houve quem, nesse século das Luzes, se questionasse: como é que é possível que a natureza exiba tamanha bruteza numa época tão civilizada?
Mas há também os crentes que tratam Deus como um empregado de café e se desfazem em pedinchices, quero isto, quero aquilo. E há também aqueles que vêem Deus nos modos, jeitos e trejeitos quase perfeitos como a Natureza tantas vezes se porta, ao contrário da outra, da Natureza cruel.
Há uma Natureza delicada, gentil, cheia de curvas suaves, e escarrapacha-nos com o sublime na cara, com números de ouro e belas espirais e crescimentos gnomónicos. Nem é preciso comprar um telescópio ou um microscópio, basta ter olhos e olhar. A natureza pode ser bela e aí levantam-se vozes exibindo a marca do Artista. Tanto sublime tem de ter Autor, tanto maneirismo tem de ter Senhor.
Daqui se depreende que a Natureza bela como mil demónios e a outra, terrível e bruta, não são senão a mesma e que a sua existência não justifica outras existências ou inexistências. Deus não existe quando a Natureza é bela, nem se desfaz em pó quando ela treme.
Agora seria a altura de falar das primeiras heresias cristãs (que se estenderam sob várias formas pelos séculos), e do modo como se ajuntava (ou separava) a bondade divina ao vale de lágrimas que se vive por aqui. Para não me estender por essas paisagens, prefiro remeter o paciente leitor a lugares que o elucidarão com mais diligência. (Link)
Voltemos ao início deste texto: nestas alturas de calamidades, as pessoas interrogam-se sobre a existência de Deus. Alguns crentes clamam por Ele do abismo (se me permitem palavras bíblicas) enquanto incréus se riem da Sua imérita indiferença. Realmente não é fácil encontrar Deus nas desgraças (onde é que Ele estava para permitir isto?), mas talvez não estejamos a procurar no sítio certo. Talvez o Homem seja um bom lugar para começar, talvez seja melhor encontrá-Lo na humanidade do que procurá-Lo no mar (quer quando reflecte o sol, quer quando transborda em fúria).
E para acabar deixo um texto que Ouspenski citou de um livro de M. V. Lodizhenski, que por sua vez citou Avva Dorotheus (século VII):
"Imaginem um círculo e dentro dele um centro; e vários raios a partir desse centro. Quanto mais se afastam do centro, mais distantes e divergentes uns dos outros se tornam; inversamente, quanto mais próximos do centro, mais se aproximam entre si. Agora suponham que este círculo é o mundo: o centro dele, Deus; e as linhas rectas (raios) que vão do centro para a circunferência e da circunferência para o centro são os caminhos da vida dos homens. E também nesse caso, quanto mais se aproximam do meio do círculo, desejando aproximar-se de Deus, ao fazer isso tornam-se mais próximos uns dos outros. (…) Raciocinem de maneira semelhante em relação ao afastamento deles de Deus. (…) eles também se afastarão uns dos outros, e quanto mais separados uns dos outros, mais se separam de Deus."

dezembro 30, 2004 02:08 AM
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